Para os moradores de Santa Maria Madalena, na Região Serrana do Rio, esta segunda-feira (21) ficará marcada na memória. O corpo da atriz Dercy Gonçalves, que nasceu na pequena cidade, chegou por volta das 16h no Clube Montanhês, onde será velado até o meio-dia de terça-feira (22), quando será enterrado.
O clube foi decorado com fotos da carreira da atriz. Quando o caixão foi retirado do carro que levou o corpo até a cidade, a população bateu palmas por vários minutos. Logo se formou uma enorme fila de fãs que queriam dar o último adeus à Dercy. Algumas pessoas ficaram muito emocionadas e chegaram a passar mal, sendo socorridas por uma ambulância.

"A perda de Dercy para nós é incalculável. Além de ter sido uma grande atriz, ela ajudou a promover a nossa cidade. Ela sempre estava aqui, nunca se esqueceu de nós", disse o aposentado Hugo Martins Bizzo, 77 anos.


Dório Victor / G1
Corpo de Dercy chega à cidade, onde é esperado por centenas de pessoas: população bateu palmas (Foto: Dório Victor / G1)
  Faixas com fotos e frases de carinho

O carinho pela atriz era visível em todos os cantos da cidade. Faixas com frases de carinho ou com fotos da atriz estavam penduradas nas janelas das casas. Moradores, emocionados, aguardavam nas calçadas pelo carro que levou o corpo da atriz até a cidade. Muito choro, saudade e, por que não, alegria.

"O meu primeiro terno foi o pai da Dercy quem fez. Eu tinha apenas 14 anos, nunca vou me esquecer. Depois, já velho, nos tornamos amigos. Dercy era uma figura alegre, e sempre ficarei alegre ao me lembrar dela. Uma pessoa inesquecível", disse o aposentado José Augusto Cário, de 80 anos.

 

  Sobrinho lembra dificuldades que Dercy enfrentou

Um dos sobrinhos de Dercy Gonçalves estava presente na chegada do caixão. O funcionário público aposentado Carlos Chamberlini, de 74 anos, contou que se lembra das dificuldades enfrentadas pela atriz no começo da carreira, e fica orgulhoso ao falar que ela conseguiu superar os obstáculos para firmar seu nome na história do país.

 

Foto: Dorio Victor / G1 
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Clube onde o corpo de Dercy será velado foi decorado com fotos da carreira da atriz (Foto: Dorio Victor / G1)

"E muito interessante vermos toda a trajetória da vida de Dercy. Ela sempre conseguiu brilhar, mesmo depois de ter enfrentado vários desafios para se tornar atriz. Desafios entre aspas, porque naquela época tudo era difícil de se fazer, principalmente para uma mulher. Era um exemplo de vida, uma pessoa boa e amada por todos. Vamos sentir saudades", disse.

 

  Corpo também foi velado na Alerj

O corpo de Dercy foi velado no domingo e na manhã desta segunda-feira (21)  na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no Centro da cidade.

 

Aos 101 anos, Dercy Gonçalves morreu às 16h45 de sábado (19) no Hospital São Lucas, em Copacabana, Zona Sul do Rio. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, Dercy foi internada na madrugada do próprio sábado, com um quadro de pneumonia comunitária grave, que evoluiu para insuficiência respiratória.

 

Foto: Dório Victor / G1 
Dório Victor / G1
Menina segura um cartaz com uma homenagem a Dercy, em Santa Maria Madalena (Foto: Dório Victor / G1)
  Homenagens

Cerca de 450 pessoas, entre amigos e fãs, compareceram à Alerj para prestar homenagem a Dercy. Entre as flores que enfeitaram o salão do velório, estavam coroas enviadas presidente Lula e a primeira-dama e pela produção do programa "Domingão do Faustão".

 

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e o prefeito da capital fluminense, Cesar Maia, decretaram luto oficial no estado e na cidade em homenagem à atriz.

 

Entre os presentes no velório, estava a atriz Marília Pêra, que disse que sempre se lembra da amiga com “uma gargalhada, um grande deboche”. Marília, que vai dirigir um texto de Maria Adelaide Amaral sobre a vida de Dercy, defende que a atriz revolucionou a ribalta.

“O estilo novo do teatro brasileiro foi ela que trouxe. Quebrou todos os tabus do teatro clássico. Ela é a fonte muitas vertentes que estão por aí. E não dá nem para ficar triste. Mesmo na hora da morte eu acho que a Dercy traz uma alegria para a gente. Para chegar a essa idade, ela dizia que a receita era trabalhar e saber dizer não. Dizia que ia morrer quando ela quisesse. Eu tenho a impressão que agora ela quis.”

 

Foto: Aluízio Freire/G1 
Aluizio Freire/G1
Marília Pêra e Stepan Nercessian no velório (Foto: Aluizio Freire/G1)

O também ator Stepan Nercessian também comentou a vida e a carreira de Dercy. "Era uma pessoa muito solidária. Se preocupava com os colegas. Espero que ela tenha esse reconhecimento, e não apenas de uma figura caricata, que falava palavrões."

 

  Alegria da platéia

Já o cantor e compositor Billy Blanco diz que Dercy foi uma “cantiga”. "Ela foi a alegria da ribalta e da platéia. Aliás, por falar em cantiga, deixo um recado para quem fica: haja o que houver, não pare de cantar. Ela foi uma mulher capaz em todos os sentidos. Deixa todas as lembranças"

O cantor Agnaldo Timóteo é outro amigo que presenciou o velório. Timóteo, que disse conhecer Dercy há 43 anos, afirmou que a atriz deixa uma lição sem igual, porque sabia “tirar sarro da vida”. “O homem lá de cima era fã dela porque a levou sem que ela sofresse, sem que ela ficasse em uma cama. Ela merece esse descanso”, falou.

 

Antes mesmo de o corpo chegar à Alerj, a atriz Virginia Lane, de 88 anos, companheira de Dercy nos espetáculos do teatro de revista, já estava na Alerj para prestar as últimas homenagens.


Foto: Aluizio Freire / G1 
Aluizio Freire / G1
Dercy pode ser comparada a Carmen Miranda, diz Nelson Couto (Foto: Aluizio Freire / G1)

“Fiz questão de ser a primeira. Quero que ela saiba que eu fui a primeira a cumprimentá-la. Ela vai para um lugar que daqui a pouco eu também vou. Trago boas lembranças da Dercy, porque éramos muito amigas. E ela me dizia, quando era mais nova, 'você vai longe com essas longas pernas'."


Nelson Couto, da Confraria do Garoto, foi outro que prestou as últimas homenagens a Dercy, sem deixar de fazer uma crítica ao lugar escolhido, bem ao estilo do grupo irreverente.

“Ela não gostava de políticos e deveria ser velada no (Theatro) Municipal ou (teatro) João Caetano”, disse. “Ela nunca vai ser esquecida e pode ser comparada a Carmen Miranda”, acrescentou Nelson Couto.